Eleições municipais em Porto Alegre: como garantir a unidade das forças que se reivindicam de Esquerda

Por Roberto RobainaPresidente Municipal do PSOL e vereador de Porto Alegre Há, numa parte importante da vanguarda política e social de Porto Alegre, um debate sobre a unidade eleitoral para 2020 das forças democráticas e dos partidos que reivindicam os interesses da classe trabalhadora. Este texto parte dessa necessidade. Tal unidade é necessária porque é […]

5 fev 2020, 17:50
Eleições municipais em Porto Alegre: como garantir a unidade das forças que se reivindicam de Esquerda

Por Roberto Robaina
Presidente Municipal do PSOL e vereador de Porto Alegre

Há, numa parte importante da vanguarda política e social de Porto Alegre, um debate sobre a unidade eleitoral para 2020 das forças democráticas e dos partidos que reivindicam os interesses da classe trabalhadora. Este texto parte dessa necessidade. Tal unidade é necessária porque é justa. É justa porque a união nos permite melhores condições para enfrentar a extrema direita e o fascismo. Neste texto, esta é a pauta. É claro que a unidade deve se dar nas lutas e nelas se desenvolver. Deve ser física, quando for preciso. Sobretudo física, porque atualmente temos no país o bolsonarismo, que tem na sua definição essencial a potencialidade de constituir-se como força de ataque físico, violento, às organizações democráticas e às instituições da classe trabalhadora e da esquerda.  Eis a definição essencial do nazi-fascismo: é a política que trata de derrotar fisicamente o movimento operário, dos trabalhadores e da esquerda com o método da guerra civil. No Brasil, essa força encontra-se menos em ato do que em potência, mas deve ser levada a sério.

Se levamos seriamente em conta a necessidade de enfrentar a extrema direita – que hoje não tem uma força fascista constituída como partido político enraizado e estruturado mas tem nas mãos o núcleo mais forte do governo federal via a presidência da República -, deve-se pensar as eleições municipais com esse tema no horizonte. Neste sentido, como podemos trabalhar pela unidade? Quais são as possibilidades que garantem esse caminho? Aqui quero apresentar várias hipóteses e, desde já, de modo claro e honestamente, como deve ser tal debate, apresentar a única hipótese que a impede. Vale marcar isso de cara: há várias possibilidades e fórmulas que garantem a unidade e apenas uma que a impede. Por qual vamos optar?

Para construir a unidade é preciso ter um programa comum. Mas se partimos da ideia desse texto, de que a unidade é necessária, então está pressuposto que um programa comum é possível. Logo, se o programa não é um obstáculo, é necessário encontrar os nomes que vão encabeçar a chapa que disputará a eleição. Serão os nomes que indicarão a unidade e o propósito real de união. Do nosso ponto de vista, quais são as várias possibilidades que estão sob a mesa e permitem que se avance num debate real pela unidade? Eis algumas delas: Manuela prefeita/Ruas vice, Manuela prefeita/Fernanda vice, Fernanda prefeita/Manuela vice, Luciana prefeita/Manuela vice, Fernanda prefeita/Rossetto vice, Rossetto prefeito/Luciana vice, Olívio prefeito/Luciana vice. Há outras variantes, outros nomes e outras fórmulas possíveis. Todas as citadas e outras mais podem garantir a unidade. Mas é preciso que a fórmula contemple as forças que podem conformar essa aliança. Isso é que lhe confere legitimidade como fórmula possível, a saber a capacidade de incorporar seriamente a hipótese de algo novo que significaria a aliança entre o PT, o PC do B, o PSOL, o PCB, a UP (não incluo o PSTU porque esse partido não concorda com aliança eleitoral com o PT). 

Algumas das hipóteses apresentadas acima podem ser consideradas ruins eleitoralmente. E como é de eleição que se trata, é preciso discutir qual a melhor fórmula eleitoral. Qual a melhor fórmula para vencer. Aceitamos a discussão, e deve-se levar em conta as pesquisas de opinião. Mas não apenas isso. É útil ler o alerta escrito na Carta Capital desta semana de um especialista em pesquisas eleitorais.

Pesquisas eleitorais a anos, ou mesmo meses, de uma eleição servem para algumas coisas, mas são inúteis para outras. Permitem identificar o nível de avaliação positiva de determinado candidato, embora, a rigor, possa não significar muito do ponto de vista eleitoral. Também servem para dimensionar a notoriedade de alguém, mostrar se o recall de um nome é alto ou baixo. Tampouco tende a ser relevante na hora da decisão.

Boa imagem, às vezes, não quer dizer nada. Vimos, em diversas eleições para prefeito, governador e presidente, como nomes bem avaliados podem desaparecer na urna. Inversamente, são vários os exemplos de indivíduos detestáveis que terminam vencedores. Notoriedades, de outro lado, é tudo que alguém precisa para ter uma boa largada na corrida eleitoral, mas costuma ser insuficiente para chegar à reta final com chances de vencer.

No critério eleitoral, apesar do alerta correto de Marcos Coimbra, é claro que o nome de Manuela é forte. Está em primeiro lugar em muitas pesquisas. Mas o nome de Fernanda também é. É uma novidade da política na cidade. O nome de Luciana também é forte. Foi a deputada estadual mais votada em Porto Alegre na última eleição. Alguns argumentam que o nome de Ruas deveria ser o vice de Manuela. É uma proposta inteligente, porque Ruas tem capital eleitoral e é reconhecido pelo trânsito entre brizolistas e petistas, além de ter sido o terceiro deputado estadual mais votado na capital. Então, trata-se de uma proposta com capacidade de unir. São todas hipóteses que aceitamos para avançar nas negociações. Aceitaríamos também a hipótese de o PT encabeçar a chapa como pleito legítimo de um esforço unitário? Sim, sempre que na composição da fórmula os dois campos se expressem, isto é, o campo da esquerda que governou o Brasil por 13 anos e o campo da esquerda que fez oposição e que hoje se encontram juntos em oposição ao Bolsonarismo.

É claro que a discussão de programa ganharia um peso muito maior para permitir a união caso o PT fosse o partido que encabeçasse a fórmula. Se o PSOL estivesse com seu nome na cabeça, acreditamos também que o PT teria de exigir um debate mais seguro sobre as pretensões nossas. A responsabilidade de quem encabeça é maior. Somos conscientes de que há pontos importantes de nosso programa que não são parte do programa do PT e vice-versa. Não temos o mesmo programa. Mas, como dissemos, acreditamos que o programa não é o que divide se os nomes indicarem o compromisso programático. Um programa mínimo de compromisso é possível. A seriedade com o qual encaramos o debate é que nos levou a colocar várias hipóteses sobre a mesa. E se pode por outras. Alguém pode dizer que a hipótese de Rossetto encabeçar a chapa, por exemplo, é um absurdo. Argumentará que Rossetto é pouco conhecido ou que é um político que não pode ser apresentado nem como novo nem como novidade. Esta, todos sabem, não é nossa proposta. Mas ela é legitima. Até porque, em defesa de Rossetto se pode argumentar que o PT tem tempo de TV superior a todos os demais e que o mesmo Rossetto obteve cerca de 18% dos votos em Porto Alegre nas últimas eleições para governador. É um debate legítimo, e a paciência deve ser uma boa conselheira de todos e todas. O nome de Rossetto, de toda a forma, não foi apresentado pelo próprio PT como candidato a prefeito. O PT está defendendo o nome de Manuela como o melhor. É uma posição lógica porque Manuela está em primeiro lugar em algumas pesquisas de opinião e porque, sobretudo (isso do nosso ponto de vista pelo menos), Manuela foi a vice de Haddad, e o PC do B apoia as chapas nacionais do PT desde 1989. Assim, participa do campo político que tem no PT o partido mais forte há mais de 30 anos. O PT definiu o nome de Manuela e sugeriu apresentar o nome do vice. Neste caso, apenas se inverteria a fórmula, mas com a mesmas forças de sempre. É uma hipótese, portanto, que não incorpora nem como segundo nome o outro campo político que conformaria uma aliança verdadeiramente nova, cujo o PSOL é o partido mais forte, mas que pode também ter o PCB e a UP. Seria uma escolha para não ter unidade.

Assim, creio que estamos deixando claro nossos critérios para o desenvolvimento de uma possível aliança. Aliança deve unir dois campos. Por fim, quem acompanhou os debates até aqui sabe que nós, do PSOL, abrimos uma hipótese de que os nomes da fórmula não sejam escolhidos um de cada campo político. Trata-se da possibilidade das prévias. Se todos os militantes forem chamados a decidir o nome que deve encabeçar a chapa e o segundo nome escolhido como vice, então caberá aos militantes a escolha e a ela nos submeteremos.